As finanças do Sport em 2020: obscuridade nas contas e dívidas fora de controle ameaçam presente e futuro do leão

26/07/2021
financassports

A crise entre direção e atletas se agravou, ainda, depois que o então presidente provisório, Pedro Leonardo Lacerda, afirmou que salários de abril tinham sido pagos – em julho! Mesmo temendo retaliações, jogadores usaram as redes sociais e a imprensa para desmenti-lo.

Poucos dias depois, foi a vez de Thiago Neves ter a sua insatisfação revelada pela imprensa. O jogador considerava, inclusive, a possibilidade de deixar o Sport por causa dos salários atrasados.

A crise financeira não é a única. Além dela, há a política. Milton Bivar renunciou à presidência do clube rubro-negro por “questões políticas”, dizendo-se descontente com divisões nos bastidores.

Um mês depois da renúncia, Leonardo Lopes venceu nova eleição, organizada às pressas, e assumiu a responsabilidade de dirigir o Sport. Ele, que já foi diretor jurídico e de futebol, entra na presidência, aos 44 anos, com a missão de recuperar o clube em todas as suas esferas.

Quais são os desafios para a nova administração na área financeira? Neste texto, com base no balanço anual referente a 2020, o ge tenta esclarecer a situação para torcedores rubro-negros.

Panorama

A comparação entre faturamento (tudo o que foi arrecadado em cada temporada) e endividamento (o que havia a pagar ao término de cada exercício) mostra um clube em severa crise financeira.

Mesmo tendo voltado da segunda divisão na virada de 2019 para 2020, as receitas rubro-negras não voltaram ao patamar anterior. Elas continuaram baixas mesmo no Campeonato Brasileiro.

E as dívidas não param de aumentar. Hoje, elas são três vezes maiores do que a arrecadação, um sinal de um clube de futebol que está em estado falimentar. O Sport vive uma de suas piores crises.

Receitas

Em todas as análises financeiras, o blog apresenta o detalhamento da arrecadação do clube. Assim, o torcedor pode entender por que entrou menos dinheiro no caixa, o que poderia ser feito para melhorar o desempenho, entre outras questões básicas e corriqueiras.

Infelizmente, o Sport não apresenta esses dados de maneira adequada em seu balanço. O clube ainda coloca a maior parte de suas receitas em uma rubrica “futebol” – sem que se possa saber quanto corresponde a direitos de transmissão, transferências de atletas etc.

Por causa da falta de transparência do Sport, um problema presente em suas documentações financeiras há muito tempo, o máximo que se pode saber é o tamanho da receita como um todo. Em 2020, o clube arrecadou R$ 55 milhões, antes de deduções comuns no futebol.

É provável que o Sport tenha registrado muito pouco em bilheterias, pois a pandemia do coronavírus impediu que ingressos fossem vendidos no país inteiro. Mensalidades de sócios caíram cerca de R$ 2 milhões – algo que o balanço mostra, por estarem descritas numa linha separada.

Nos direitos de transmissão, parte do dinheiro deve ter sido adiada para o balanço de 2021. Como o Campeonato Brasileiro terminou apenas em 2021, a fração relacionada à posição final na tabela provavelmente ficou para o exercício seguinte. O documento deveria descrever quanto.

O que há de mais preocupante, na análise superficial que se pode fazer, é a variação em relação ao ano anterior, 2019, em que a associação disputava a Série B. Sem ter conseguido recuperar a arrecadação à qual estava habituado, o Sport teve menos dinheiro para sair da crise.

Orçado versus realizado

Em todos os textos sobre as finanças, o blog faz a comparação entre orçamento e balanço. A ideia é colocar em paralelo as projeções feitas pelos dirigentes e os resultados obtidos por eles depois de um ano. Neste caso, não será possível. O clube não publica orçamento.

Dívidas

A partir daqui, o quadro clareia um pouco. O detalhamento adotado pela diretoria rubro-negra na descrição de ativos e passivos permite ter uma noção da situação financeira. E então o torcedor passa a entender por que salários atrasam, reforços não vêm, entre outras infelicidades.

Ao dividir o endividamento de acordo com o prazo para pagamento, percebe-se que o Sport terminou 2020 com R$ 144 milhões a pagar no curto prazo – ou seja, em menos de um ano, no decorrer de 2021.

Para um clube que arrecada por volta dos R$ 50 milhões e ainda tem todas as suas despesas a pagar, esta dívida de curto prazo se torna impagável, impossível de honrar conforme combinado.

Diferente de muitos clubes, o Sport não tem uma dívida relevante com instituições financeiras. As únicas pendências que aparecem na dívida “bancária”, segundo critério do blog, são as com “partes relacionadas”, isto é, pessoas que têm alguma relação com a administração do clube.

Milton Bivar, então presidente, aproveitou 2020 para recuperar o dinheiro que tinha emprestado para o Sport. No decorrer da temporada, o dirigente reduziu a dívida do Sport consigo mesmo em R$ 378 mil. Ficaram apenas R$ 20 mil a pagar para Milton no futuro.

Esses são outros valores devidos a pessoas:

  • R$ 30 mil – Martorelli Advogados (João Humberto Martorelli)
  • R$ 30 mil – Gustavo Dubeux
  • R$ 25 mil – Arnaldo Barros
  • R$ 467 mil – Laércio Guerra
  • R$ 1,2 milhão – Luciano Bivar

A parte mais sensível do endividamento rubro-negro está na parte trabalhista e fiscal. Lembremos que, apesar de clubes de futebol no Brasil serem isentos de boa parte dos impostos (IRPJ, CSLL etc), as associações ainda precisam recolher impostos baseados na folha.

O Sport não cumpriu com essas obrigações, básicas, por muito tempo. O Imposto de Renda (IR) dos jogadores, por exemplo, foi apropriado pelo clube. O valor foi retido dos pagamentos para os atletas, mas não foi repassado para o governo. Isto configura crime tributário.

Apenas no curto prazo, entre impostos retidos na fonte e não repassados para o governo, e outros nunca pagos, existem R$ 36 milhões. Este valor aumentou em 2020, o que indica que a administração de Milton Bivar também não honrou com suas obrigações.

Além disso, existem parcelamentos de impostos que deixaram de ser pagos no passado. Quer dizer, deveria haver parcelamentos. No balanço do Sport, constam R$ 27 milhões em parcelamentos que foram cancelados por falta de pagamento. O clube nunca entrou no Profut.

Salários, fundo de garantia e INSS ainda acrescentam outros R$ 38 milhões. Uma cifra que também aumentou no decorrer de 2020, em relação a 2019, embora já estivesse em um patamar inaceitável.

Todos esses valores, ainda acrescentados a ações movidas na justiça por ex-jogadores e ex-funcionários, aparecem no gráfico abaixo em “trabalhista”. Na parte “fiscal”, estão parcelamentos de impostos não pagos que ainda estão válidos. Em “outros”, aparecem fornecedores.

É possível que nos fornecedores a dívida também tenha relação com jogadores, pois quase a totalidade, segundo o balanço, está vinculada a “fornecedores de serviços”. Podem ser direitos de imagem atrasados. O documento não é suficientemente claro também a respeito disso.

Globo esporte

Notícias relacionadas...

Mais notícias

Nossos Anunciantes