Por que o real é a moeda que mais se desvalorizou em 2020

16/10/2020
dinheiro21

Dezenas de países viram o dólar ficar mais caro desde o início da crise provocada pela pandemia de covid-19.

É difícil, entretanto, encontrar algum com uma desvalorização da moeda tão intensa quanto o Brasil.

O real perdeu 28% do seu valor perante o dólar desde 31 de dezembro de 2019, deixando para trás o limite “psicológico” de R$ 4 por dólar. Hoje, o comercial é negociado a cerca de R$ 5,50. O turismo, a R$ 5,80.

É o pior desempenho entre as 30 moedas mais negociadas do mundo mais o peso argentino, conforme levantamento feito pelos professores da Fundação Getulio Vargas (FGV) Henrique Castro e Claudia Yoshinaga a pedido da BBC News Brasil.

“Decidimos incluir o peso porque as pessoas vinham perguntando: ‘E o peso? A Argentina não está pior (em relação à depreciação cambial)? Não, não está”, diz a coordenadora do Centro de Estudos em Finanças da FGV-EAESP.

Gráfico com desvalorização de ampla cesta de moedas

Por que o dólar subiu?

O real costuma ser muito afetado pelo que acontece no exterior, ela explica, porque o país depende muito do investimento estrangeiro para captar dólares.

Quando o mundo está mais avesso a risco, esses investidores costumam tirar o dinheiro de mercados emergentes, como o Brasil, e levá-los a mercados considerados mais seguros, ainda que o retorno seja menor. Com menos dólares circulando, o preço sobe.

E, de fato, o Brasil tem assistido a uma saída de investidores estrangeiros — e domésticos — de seu mercado de capitais.

Conforme as estatísticas do setor externo divulgadas pelo Banco Central, o saldo líquido entre janeiro e agosto é negativo em US$ 28,3 bilhões, quando se considera o chamado investimento em portfólio (aquele feito em ações ou títulos de dívida, modalidade diferente do chamado “investimento direto no país”, que contabiliza o fluxo de capitais no setor produtivo, como a participação direta em empresas, por exemplo).

A estimativa do Institute of International Finance (IIF), que tem projeções para o investimento em portfólio divididas entre residentes e não-residentes, é que os estrangeiros, sozinhos, retirem US$ 24 bilhões do Brasil entre janeiro e dezembro de 2020.

Para Martin Castellano, chefe do departamento de pesquisas do IIF para a América Latina, um dos fatores que explicam a fuga de investidores — e, por consequência, a desvalorização do real — é o risco fiscal.

Dólar

Legenda da foto,Para economista, incerteza em relação às contas do governo torna Brasil mercado mais arriscado

Assim como a grande maioria dos países, o Brasil abriu as torneiras do gasto público para tentar amenizar o impacto da crise na economia.

“O que tem gerado incerteza é a capacidade do país retornar à austeridade fiscal quando a pandemia acabar”, ele pondera, referindo-se às discussões sobre a possível flexibilização do teto de gastos.

A falta de uma visão unitária no governo sobre esse assunto também prejudica a imagem do país, ele diz.

De um lado, o ministro da Economia, Paulo Guedes, e sua equipe defendem que se respeite o limite para o aumento de gastos imposto pelo teto; de outro, uma ala do governo advoga pelo aumento do investimento público, ainda que à custa do teto. O presidente, por sua vez, ora oscila para um lado, ora para outro.

No meio dessa ciranda, diante da dívida pública crescente e das incertezas em relação a quando ela deve estabilizar ou mesmo recuar, o Brasil acaba sendo visto como um mercado mais arriscado.

“Também existe uma preocupação grande com nossa agenda de reformas”, acrescenta Claudia Yoshinaga, da FGV.

As reformas tributária e administrativa, prometidas pelo governo ainda na campanha, mas ainda longe de se tornarem realidade, poderiam contribuir para a recuperação da economia no médio e longo prazo.

Na falta de um motor robusto para o crescimento, o caminho que o Brasil vai percorrer para sair da crise ainda não está totalmente claro — e uma expectativa mais modesta de desempenho da economia também reduz a perspectiva de retorno de potenciais investidores.

A professora ressalta que o fato de que o Brasil não tem conseguido segurar o investimento estrangeiro em um momento em que o país está muito barato — já que um dólar compra muito mais reais do que um ano atrás — deveria ser um “sinal de alerta”.

Porquinho cheio de dólares

Legenda da foto,Desvalorização do real aumenta receita dos exportadores – e ajuda a explicar alta nos preços de alimentos

BBC

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