Coronavírus: como desigualdade entre ricos e pobres ajuda a explicar alta de casos de covid-19 em Manaus

13/10/2020
comercio

A desigualdade social passou a dar pistas sobre o que aconteceu na primeira onda da doença em Manaus e o que está acontecendo com o aumento de casos que a cidade enfrenta atualmente.

Em resumo, dados e especialistas apontam que o vírus chegou à cidade com as classes mais abastadas em rotas internacionais e nacionais e depois se espalhou com força pelos bairros mais pobres. Hospitais públicos e cemitérios ficaram lotados. As mortes em casa mais que dobraram.

Quando passou o pico da doença, que matou quase 3 mil pessoas, e a cidade se reabriu, foram os mais abastados que começaram a encher leitos de hospitais privados em proporção cada vez maior porque lhes faltam duas coisas: distanciamento social, que antes os salvou mas depois deixaram de praticar, e anticorpos, que o isolamento inicial impediu que desenvolvessem.

Mas para entender como a cidade chegou a uma tragédia que agora se repete, é preciso voltar ao início da pandemia. O primeiro caso oficial na capital do Amazonas surgiu em 13 de março. Uma mulher de 39 anos que voltou infectada de Londres e procurou um hospital particular ao sentir os sintomas. Não chegou a ser internada.

Até o início de abril, a covid-19 estava concentrada nas classes mais ricas de um Estado onde 85% da população depende da rede pública de saúde (SUS). Naquela época, 57% das internações por doenças respiratórias estavam em hospitais particulares de Manaus.

Era questão de tempo até o cenário se inverter.

Apesar da tragédia, a cidade não adotou um bloqueio total à circulação de pessoas, como fizeram a China e a Itália nos momentos mais críticos.

O prefeito de Manaus, Arthur Virgílio Neto (PSDB), resistiu à medida, recomendada à época por especialistas e autoridades do Ministério Público. Dizia temer conflitos armados nas ruas, e adotou outras medidas de restrição.

Mesmo com lojas, empresas e escolas fechadas, as condições de vida em Manaus ajudaram a acelerar o avanço da doença.

A maioria dos manauaras vive em favelas, mora em casas com mais de 3 pessoas, circula em transportes públicos lotados e depende de trabalhos informais para sobreviver. Quase 10% dos domicílios não têm água encanada. E como em outras capitais brasileiras, essa parcela menos favorecida da população não teve opção além de seguir a vida como era possível, apesar da pandemia.

O distanciamento social, calculado pela empresa InLoco a partir de dados de telefones celulares, nunca passou de 60% da população do Amazonas, mesmo no auge da pandemia.

E se no início de abril a minoria das internações estava em hospitais públicos, no início de junho, representavam mais de 80% do total.

Valas abertas em Manaus

Legenda da foto,Amazonas é um dos Estados com maior percentual de aumento de óbitos em relação a 2019

Foi por volta dessa época que o número de infecções começou a cair, e não se sabe bem direito por quê. A cada dia havia menos pessoas doentes, internadas e mortas pela covid-19.

As explicações à época para o recuo da pandemia, que ainda são hipóteses, falam principalmente em duas coisas: 1. efeitos positivos de distanciamento físico e uso de máscara e 2. imunidade coletiva (ou de rebanho).

De acordo com essa segunda explicação, haveria tanta gente doente que o vírus não teria conseguido mais se espalhar e matar com força (algo similar ao que acontece quando as pessoas são vacinadas em massa).

Tanta gente quanto? Por causa da falta de testes e estrutura para analisar esses exames, pesquisadores tentam há meses dimensionar o real tamanho da pandemia na cidade e no Brasil como um todo.

Os números oficiais apontam para 2,6 mil mortes e 53 mil infectados em Manaus desde março, ou 2% dos 2,2 milhões de habitantes.

Dados de cartórios, no entanto, mostram um número de mortos na cidade durante a pandemia que supera a média histórica. É o que se chama de mortes em excesso. Esse total aumentou quase 50% de 2019 para 2020, ou de 6.398 para 9.420.

E um estudo recente, coordenado pela imunologista Ester Sabino, professora e diretora do Instituto de Medicina Tropical da Universidade de São Paulo (USP), estimou que não foram apenas 2%, mas sim 66% dos habitantes de Manaus os contaminados pelo vírus. Ou seja, 1,5 milhão de pessoas infectadas.

“Embora intervenções não farmacêuticas, além de uma mudança no comportamento da população, possam ter ajudado a limitar a transmissão do Sars-CoV-2 em Manaus, a taxa de infecção excepcionalmente alta sugere que a imunidade de rebanho desempenhou um papel significativo na definição do tamanho da epidemia.”

O fato é que o recuo da pandemia durou pouco em Manaus. O comércio reabriu em junho, só que em agosto o número de pessoas infectadas voltou a crescer e especialistas passaram a defender medidas rígidas de distanciamento social. Mas não se sabe o que está acontecendo e nem se há ou não uma segunda onda de casos na cidade.

BBC

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