Piora econômica deve empurrar 3,8 milhões de domicílios para as classes D e E neste ano

26/08/2020
Piora social — Foto: Economia G1
Piora social — Foto: Economia G1

A recessão provocada pela pandemia do novo coronavírus, que atingiu uma economia já fragilizada e com baixo crescimento, vai empurrar milhões para a camada social mais pobre do país. Além de piorar a condição de vida de uma fatia significativa da população, a atual crise deve impedir que parte dos brasileiros consiga progredir socialmente.

Neste ano, segundo um estudo realizado pela consultoria Tendências, 3,8 milhões de domicílios devem passar a engrossar as classes D e E por causa da piora da economia. Ao todo, serão cerca de 15 milhões de brasileiros – contingente equivalente ao número de habitantes do estado da Bahia – que terão uma piora de condição social e passarão a ter uma renda domiciliar inferior a R$ 2,5 mil.

Antes da crise sanitária, a Tendências já esperava uma piora do quadro, devido ao cenário de baixo crescimento econômico. Mas a expansão das classes D e E seria bem menor: uma alta de 600 mil domicílios. Só a pandemia será responsável por empurrar mais 3,2 milhões de lares para a base da pirâmide social, segundo o estudo.

No fim deste ano, 41 milhões de lares estarão nas classes D e E.

O que explica essa pioria adicional é a forte deterioração do mercado de trabalho, tanto informal como formal, durante a pandemia. Entre maio e julho, o desemprego cresceu 20,9% e alcançou 12,2 milhões de pessoas.

Mas o real impacto da doença no mercado de trabalho está escondido em outros números. No segundo trimestre, por exemplo, 8,9 milhões de brasileiros perderam o emprego – 6 milhões deles informais. Parte desse contingente, porém, ainda não voltou a procurar uma recolocação, seja por conta do risco de contágio da Covid-19 ou devido aos auxílios que vem recebendo do governo. Portanto, esses números ainda não se refletiram na taxa de desemprego.

Não por acaso, boa parte dos novos integrantes das classes D e E deve vir da classe C – domicílios com renda entre R$ 2,5 mil e R$ 6,1 mil. Pela projeção da Tendências, a classe C deve perder neste ano quase 2 milhões de domicílios.

De forma geral, os domicílios da classe C têm uma renda bastante variável porque, de todos os integrantes, apenas um costuma ter um trabalho fixo. Os demais têm renda variável e, portanto, são sensíveis a qualquer instabilidade no mercado de trabalho.

“A família de classe C é composta por uma renda fixa, uma pessoa contratada no regime CLT, e por várias rendas variáveis”, diz o diretor executivo da consultoria Plano CDE, Maurício Prado. “Com o cenário da pandemia, essas rendas variáveis caíram muito. Então, houve uma queda muito grande da renda da classe C.”

Os trabalhadores da classe C lidam ainda com uma piora adicional recente no mercado de trabalho, já que atuam majoritariamente em atividades do setor de serviços, duramente impactadas pela pandemia com a necessidade de se promover o isolamento social para evitar um avanço ainda maior da doença.

Sem mobilidade social

Mais do que promover um retrocesso social no país, a crise causada pela pandemia também está inviabilizando a ascensão da população brasileira para novas classes sociais. Uma parte do aumento das classes D e E é explicada por novos domicílios que se formam automaticamente nesse grupo, e que, por causa da crise, não conseguem melhorar o padrão de vida.

Essa dinâmica fica evidente no comportamento da renda dos mais pobres. A Tendências estima que a massa de renda das classes D e E suba 6,8% este ano, mas este aumento se dará pelo efeito pontual do Auxílio Emergencial. Sem ele, o quadro seria ainda pior.

O auxílio, portanto, ajudou a mitigar as perdas para os mais pobres, mas foi incapaz de promover uma melhora na pirâmide social do país. Para as demais classes, ele não é capaz de evitar uma piora e todas terão redução na massa de renda.

G1

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