Poeta do sertão faz história ao vencer prêmio Jabuti com livro escrito à mão

19/11/2018
Foto: Câmara Brasileira do Livro
Foto: Câmara Brasileira do Livro

A cidade de Varjota, no sertão do Ceará, não tem livrarias. Por isso, o poeta Mailson Furtado, de 27 anos, vai todo mês à cidade vizinha para comprar livros. Lá, encontrava sua obra mais recente na “última prateleira do último corredor, de um jeito que a gente precisa abaixar a cabeça que nem um anzol para conseguir enxergar o livro”, como ele mesmo diz. Mas, quando Mailson voltar lá, não vai encontrar mais seu livro daquele jeito. Agora, ele está na vitrine.

Esta foi apenas uma das mudanças que aconteceram desde que Mailson voltou de São Paulo com dois prêmios Jabuti. Seu livro “à cidade” foi eleito não só o melhor de poesia, mas também o livro do ano, honraria máxima da principal premiação literária do país.

“Isso representa um sonho de adolescente de querer um dia mudar o mundo e mostra que é possível viver no lugar onde vivo, que é possível ser jovem e feliz no sertão” diz Mailson à BBC News Brasil.

Esta foi a primeira vez em 60 anos do prêmio Jabuti que o melhor livro foi de um autor independente, como são chamados aqueles que publicam sua obra sem o apoio de uma editora.

Mailson fez tudo praticamente sozinho. Escreveu à mão os versos de “à cidade”. Fez o desenho que estampa a capa. Editou, revisou e diagramou. E também vendeu no boca a boca os 300 exemplares pagos do próprio bolso.

“Espero ter aberto uma janela para o que se faz de diferente neste mercado, para estes autores que escrevem de forma independente e não conseguem ser publicados por editoras”, diz o poeta cearense.

Seu livro superou os ganhadores das outras onze categorias do Jabuti a partir das quais foi eleito o grande vencedor. Seu nome agora figura lado a lado ao de ganhadores de edições passadas, como Ruben Fonseca, Lygia Fagundes Telles, Luis Fernando Veríssimo, Ferreira Gullar, Hilda Hilst e Marina Colasanti.

“Foi a grande surpresa deste ano”, diz Luís Antonio Torelli, presidente da Câmara Brasileira do Livro (CBL), que realiza o Jabuti.

“Mailson fez seu livro com sacrifício. Ter concorrido com autores e editoras consagrados prova que seu trabalho é muito bom. E mostra que temos uma produção literária de qualidade ainda desconhecida no país. Precisamos de mais disso.”

G1

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